1. Resumo
Resumo: Este artigo revisa com profundidade a farmacologia dos principais sistemas neurotransmissores do sistema nervoso central (serotonina, dopamina, ácido γ-aminobutírico (GABA) e glutamato), destacando seus receptores e funções, bem como implicações terapêuticas. Apresenta-se uma análise histórica da evolução dos antidepressivos desde a década de 1950 até os tratamentos atuais, seguida de uma descrição dos mecanismos de ação dos antipsicóticos típicos e atípicos em relação às vias dopaminérgicas cerebrais. Discute-se também a farmacologia dos receptores GABA_A modulados por benzodiazepínicos e barbitúricos, comparando sua dinâmica e segurança. Por fim, explora-se a fisiopatologia da doença de Alzheimer, com ênfase nos déficits colinérgicos e mecanismos amiloide e tau, bem como os tratamentos farmacológicos disponíveis, desde os sintomáticos clássicos (inibidores de acetilcolinesterase e memantina) até as terapias recentes modificadoras da doença com anticorpos anti-β-amiloide. O trabalho apoia-se em literatura científica e textos fundamentais de farmacologia e neurociência, fornecendo embasamento conceitual rigoroso e atualizado sobre cada tópico.
2. Introdução
A neurotransmissão química é fundamental para a comunicação entre neurônios e a regulação das funções cerebrais. Neurotransmissores como serotonina, dopamina, GABA e glutamato atuam em receptores específicos que desencadeiam respostas excitatórias ou inibitórias, modulando circuitos neurais responsáveis por humor, cognição, comportamento motor, memória, entre outras funções (Kandel et al., 2021; Ritter et al., 2019). Alterações nesses sistemas neurotransmissores estão implicadas em diversas condições neuropsiquiátricas, incluindo transtornos do humor, esquizofrenia, insônia, epilepsia e demências. Por isso, fármacos que atuam modulando esses sistemas tornaram-se pilares no tratamento de doenças do sistema nervoso central.
Este artigo tem como objetivo reestruturar e aprofundar a compreensão sobre: (i) o sistema serotoninérgico e seus receptores, base da ação de muitos antidepressivos; (ii) o sistema dopaminérgico e seus receptores, cruciais na fisiopatologia e tratamento de doenças como Parkinson e esquizofrenia; (iii) a história e evolução dos antidepressivos, desde os primeiros inibidores da monoamina oxidase e tricíclicos até os tratamentos atuais, incluindo abordagens recentes; (iv) os mecanismos de ação dos antipsicóticos típicos e atípicos em relação às vias neurais dopaminérgicas; (v) os receptores de glutamato (subdivididos em NMDA, AMPA, cainato (ionotrópicos) e metabotrópicos), ressaltando seu papel na neurotransmissão excitatória e plasticidade sináptica; (vi) a farmacologia dos moduladores do receptor GABA\<sub>A\</sub>, como benzodiazepínicos e barbitúricos, examinando sua farmacodinâmica e perfil de segurança; e (vii) a fisiopatologia da doença de Alzheimer e as abordagens farmacológicas disponíveis para seu tratamento.
A relevância clínica desses temas é evidente: antidepressivos e antipsicóticos estão entre os psicotrópicos mais prescritos mundialmente, e compreender seus mecanismos auxilia no uso racional e no desenvolvimento de novos fármacos. Benzodiazepínicos, embora amplamente utilizados como ansiolíticos e sedativos, requerem precaução pelo risco de dependência e depressão do SNC, ao passo que barbitúricos, outrora muito comuns, hoje têm uso restrito dado seu estreito índice terapêutico. No caso do glutamato, seu papel duplo, essencial à plasticidade sináptica porém potencialmente excitotóxico quando em excesso, faz dele alvo de interesse tanto em transtornos agudos (como intoxicações e isquemia cerebral) quanto crônicos (neurodegeneração e esquizofrenia). Finalmente, a doença de Alzheimer permanece um grande desafio terapêutico: por décadas os tratamentos se limitaram a paliar sintomas, mas recentes terapias que visam a fisiopatologia subjacente (depósitos amiloides) despontam como esperança, embora demandem avaliação crítica de sua eficácia e segurança.
Nos tópicos a seguir, cada sistema neurotransmissor e classe farmacológica será explorado em detalhe, integrando conhecimentos de fisiologia, bioquímica e clínica, com suporte em fontes clássicas (como Rang & Dale’s Pharmacology, Goodman & Gilman’s e Principles of Neural Science) e evidências de pesquisas atuais de alto impacto (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandan, 2022; Kandel et al., 2021; López-Muñoz; Alamo, 2009). Essa integração visa proporcionar uma visão abrangente e atualizada da neurofarmacologia dos sistemas serotoninérgico, dopaminérgico, GABAérgico e glutamatérgico, bem como de suas aplicações terapêuticas no manejo de transtornos psiquiátricos e neurológicos.
3. Desenvolvimento
3.1 Sistema Serotoninérgico e Receptores 5-HT
A serotonina (5-hidroxitriptamina, 5-HT) é um neurotransmissor monoaminérgico sintetizado a partir do aminoácido triptofano nos neurônios dos núcleos da rafe do tronco cerebral. Esses neurônios projetam-se amplamente pelo cérebro, modulando humor, ansiedade, apetite, ciclo sono-vigília e outras funções homeostáticas (Kandel et al., 2021). A transmissão serotoninérgica termina principalmente por recaptação sináptica via transportador SERT e por metabolismo pela enzima monoamina oxidase. Os efeitos da 5-HT são mediados por uma família complexa de receptores, classificados em sete grupos principais, 5-HT\<sub>1\</sub> a 5-HT\<sub>7\</sub>, englobando cerca de 14 a 15 subtipos distintos (Bandala et al., 2018; Kulikov, 2023). Dentre esses, todos são receptores acoplados à proteína G (metabotrópicos) exceto o 5-HT\<sub>3\</sub>, que é um receptor canal iônico do tipo cátion seletivo (ligand-gated) (Kulikov, 2023; Ritter et al., 2019).
Os receptores 5-HT apresentam distintas distribuições e mecanismos de transdução intracelular. Os subtipos do grupo 5-HT\<sub>1\</sub> (incluindo 5-HT\<sub>1A\</sub>, 1B, 1D, 1E, 1F) estão geralmente acoplados à proteína G\<sub>i/o\</sub>, inibindo a adenilil ciclase e reduzindo níveis de AMPc, muitas vezes produzindo efeitos inibitórios neurais (Kulikov, 2023; Niswender; Conn, 2010). Por exemplo, o receptor 5-HT\<sub>1A\</sub> atua como autorreceptor somatodendrítico em neurônios da rafe (hiperpolarizando-os via abertura de canais de K\<sup>+\</sup>) e como receptor pós-sináptico em regiões límbicas, estando envolvido na modulação de ansiedade e humor. Já os receptores 5-HT\<sub>2\</sub> (2A, 2B, 2C) acoplam-se à proteína G\<sub>q\</sub>, ativando a fosfolipase C e aumentando inositol trifosfato (IP\<sub>3\</sub>) e diacilglicerol (DAG), levando a efeitos excitatorios (por elevação de Ca\<sup>2+\</sup> intracelular) (Niswender; Conn, 2010). O receptor 5-HT\<sub>2A\</sub>, em particular, é abundante no córtex e estriado e está implicado na cognição e na geração de alucinações. Sendo alvo dos efeitos de drogas psicodélicas (agonistas) e dos antipsicóticos atípicos (que atuam como antagonistas/inversos) (Ritter et al., 2019; Brunton; Knollmann; Hilal-Dandan, 2022).
O receptor 5-HT\<sub>3\</sub> é único por ser um canal iônico do tipo receptor de acetilcolina nicotínico (família cys-loop), permeável a cátions Na\<sup>+\</sup>/K\<sup>+\</sup> (e Ca\<sup>2+\</sup> em menor grau). A ativação de 5-HT\<sub>3\</sub> causa despolarização rápida de neurônios e está envolvida em mecanismos de êmese (vômito) e dor. Antagonistas seletivos de 5-HT\<sub>3\</sub> (ondasetrona e similares) são utilizados clinicamente como potentes antieméticos, especialmente em náuseas induzidas por quimioterapia. Os receptores 5-HT\<sub>4\</sub>, 5-HT\<sub>6\</sub> e 5-HT\<sub>7\</sub> constituem outra família funcional, todos acoplados à proteína G\<sub>s\</sub>, estimulando a adenilil ciclase e aumentando AMPc (Kulikov, 2023). O 5-HT\<sub>4\</sub> é expresso em neurônios entéricos e do SNC (participa do peristaltismo e possivelmente de funções cognitivas), enquanto 5-HT\<sub>6\</sub> e 5-HT\<sub>7\</sub> têm distribuição principalmente cerebral, com evidências de envolvimento em regulação do humor, cognição e sono. Por fim, os receptores 5-HT\<sub>5\</sub> (5A e 5B) são menos conhecidos; o 5-HT\<sub>5A\</sub> é expresso no cérebro e acoplado a G\<sub>i\</sub>, mas carece de fármacos seletivos e função bem definida (Ritter et al., 2019).
Em suma, a complexidade do sistema serotoninérgico (sete classes receptoras, diversas vias de sinalização) permite a serotonina modular múltiplos processos fisiológicos. Essa pluripotência explica por que os fármacos que alteram a sinalização 5-HT têm amplo espectro de efeitos. Por exemplo, antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) aumentam a disponibilidade de 5-HT globalmente, levando à dessensibilização de autorreceptores 5-HT\<sub>1A\</sub> (aumentando a taxa de disparo serotoninérgico) e à estimulação crônica de receptores pós-sinápticos, o que se acredita contribuir para sua eficácia antidepressiva ao longo de semanas (López-Muñoz; Alamo, 2009). Outros fármacos agem diretamente em subtipos específicos: buspirona (ansiolítico) é agonista parcial de 5-HT\<sub>1A\</sub>; triptanos (antienxaquecosos) são agonistas de 5-HT\<sub>1B/1D\</sub> nos vasos cranianos; antipsicóticos como a risperidona antagonizam fortemente 5-HT\<sub>2A\</sub>; a mirtazapina (antidepressivo) antagoniza 5-HT\<sub>2A/2C\</sub> e 5-HT\<sub>3\</sub>, o que contribui para perfil ansiolítico e melhora do sono/apetite. Assim, o entendimento dos subtipos de receptores 5-HT e suas transduções tem sido fundamental para a neuropsicofarmacologia, permitindo terapia mais direcionada conforme o perfil de cada transtorno e redução de efeitos adversos sistêmicos (Ritter et al., 2019; Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022).
3.2 Sistema Dopaminérgico e Receptores D
A dopamina (DA) é um neurotransmissor catecolamínico sintetizado a partir da tirosina, atuando tanto no sistema nervoso central quanto periférico. No encéfalo, os corpos celulares dopaminérgicos localizam-se principalmente em regiões mesencefálicas e hipotalâmicas, originando quatro principais vias neurais dopaminérgicas: (1) Via nigroestriatal, projetando dos neurônios da pars compacta da substância negra para o estriado dorsal (núcleo caudado e putâmen), crucial no controle motor extrapiramidal, sua degeneração causa a síndrome parkinsoniana (Rasheed; Alghasham, 2012). (2) Via mesocortical, dos neurônios da área tegmentar ventral (ATV) para o córtex pré-frontal medial e áreas límbicas corticais (cíngulo, entorrinal), envolvida em cognição, motivação e regulação das emoções. Disfunções nessa via associam-se a déficits cognitivos e sintomas negativos da esquizofrenia (Rasheed; Alghasham, 2012). (3) Via mesolímbica, também oriunda da ATV porém projetando para estruturas límbicas subcorticais, especialmente o núcleo accumbens (estriado ventral) e amígdala. É central nos mecanismos de recompensa, prazer e motivação, e a hiperatividade dopaminérgica mesolímbica relaciona-se aos sintomas positivos da esquizofrenia (delírios, alucinações)[pmc.ncbi.nlm.nih.gov](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3449100/#:~:text=There%20are%20four%20major%20dopaminergic,deficit%20hyperactivity%20disorder). (4) Via tuberoinfundibular, dos neurônios dopaminérgicos do hipotálamo (núcleo arqueado e área periventricular) para a hipófise anterior (eminência mediana), onde a dopamina atua como hormônio inibitório da secreção de prolactina. Há ainda vias menos destacadas, como projeções dopaminérgicas para o hipocampo, septo, área tegmentar ventral de Gudden, bem como circuitos locais na retina e bulbo olfatório, mas as quatro citadas são consideradas as principais vias funcionais da dopamina no cérebro humano (Rasheed; Alghasham, 2012; Kandel et al., 2021).
Os receptores de dopamina pertencem à família dos receptores acoplados à proteína G e dividem-se em duas subclasses: D1-like (receptores D\<sub>1\</sub> e D\<sub>5\</sub>) e D2-like (receptores D\<sub>2\</sub>, D\<sub>3\</sub> e D\<sub>4\</sub>). Todos os cinco subtipos são metabotrópicos. Os receptores D\<sub>1\</sub> e D\<sub>5\</sub> acoplam-se à proteína G\<sub>s/olf\</sub>, estimulando a adenilil ciclase e aumentando AMPc intracelular; já D\<sub>2\</sub>, D\<sub>3\</sub> e D\<sub>4\</sub> acoplam-se à proteína G\<sub>i/o\</sub>, inibindo adenilil ciclase e diminuindo AMPc (Gainetdinov; Gurevich, 2016). Dessa forma, receptores D1-like tendem a mediar efeitos excitatórios (por exemplo, facilitando a atividade de neurônios pós-sinápticos via fosforilação de canais iônicos dependente de AMPc/PKA), enquanto D2-like produzem efeitos inibitórios diretos ou modulam negativamente a excitabilidade neuronal. Além disso, receptores D\<sub>2\</sub> localizam-se tanto pós-sinapticamente em neurônios alvo quanto pré-sinapticamente nos terminais dopaminérgicos como auto-receptores, onde exercem feedback negativo sobre a liberação de DA. A afinidade dos autoreceptores D\<sub>2\</sub> de alta afinidade regula o tônus dopaminérgico: quando há excesso de DA na fenda, esses receptores são estimulados e inibem a síntese (via tirosina-hidroxilase) e liberação de mais dopamina.
A distribuição anatômica dos subtipos dopaminérgicos é heterogênea. Os receptores D\<sub>1\</sub> e D\<sub>2\</sub> são os mais abundantes, especialmente no corpo estriado (núcleo caudado e putâmen), onde modulam as vias motoras dos gânglios da base: neurônios estriatais da “via direta” expressam D\<sub>1\</sub> (facilitadores do movimento), enquanto aqueles da “via indireta” expressam D\<sub>2\</sub> (inibidores do movimento). O balanço entre essas vias regula a atividade motora fina. No Parkinson, a perda de dopamina nigroestriatal diminui sinalização D\<sub>1\</sub> (hipofunção da via direta) e D\<sub>2\</sub> (superfunção da via indireta), resultando em bradicinesia e rigidez. Os receptores D\<sub>3\</sub> concentram-se em áreas límbicas (núcleo accumbens, ilhota) e hipotálamo; D\<sub>4\</sub> no córtex frontal, amígdala e hipocampo; e D\<sub>5\</sub> no hipocampo e hipotálamo. Essa distribuição sugere funções diferenciadas: D\<sub>3\</sub> e D\<sub>4\</sub> possivelmente modulam aspectos cognitivo-límbicos e emocionais da dopamina (sendo alvos de pesquisa em esquizofrenia e dependência química), enquanto D\<sub>5\</sub> poderia participar de processos de memória e regulação neuroendócrina (Ritter et al., 2019; Kandel et al., 2021).
Pela importância do sistema dopaminérgico, vários fármacos atuam modulando sua sinalização. Na doença de Parkinson, utiliza-se reposição dopaminérgica (levodopa, um precursor que atravessa a barreira hematoencefálica e é convertido em DA) e agonistas diretos de receptores D\<sub>2\</sub>/D\<sub>3\</sub> (pramipexol, ropinirol) para compensar a perda nigroestriatal. Em contrapartida, no transtorno psicótico como a esquizofrenia, empregam-se antagonistas dos receptores D\<sub>2\</sub> para reduzir a hiperatividade mesolímbica de dopamina associada aos sintomas positivos. Entretanto, essa mesma ação bloqueadora de D\<sub>2\</sub> em outras vias explica os principais efeitos adversos dos antipsicóticos típicos: o bloqueio de D\<sub>2\</sub> na via nigroestriatal causa sintomas extrapiramidais (parkinsonismo medicamentoso, acatisia, distonias agudas e discinesia tardia por supersensibilidade); e o bloqueio na via tuberoinfundibular remove a inibição tônica sobre a prolactina, levando a hiperprolactinemia com galactorreia, amenorreia e disfunções sexuais (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022). Assim, o conhecimento das vias dopaminérgicas e da farmacodinâmica dos receptores D permitiu entender a base desses efeitos e desenvolver drogas com perfis melhores, por exemplo, os antipsicóticos de segunda geração adicionam antagonismo de 5-HT\<sub>2A\</sub> à modulação D\<sub>2\</sub>, o que mitiga parcialmente os efeitos extrapiramidais ao restaurar alguma liberação de DA nigroestriatal (Tuplin; Holahan, 2017; ver seção 3.4).
3.3 Evolução dos Antidepressivos (1950–Atualidade)
O tratamento farmacológico da depressão passou por transformações marcantes desde meados do século XX. A década de 1950 marcou o início da era dos antidepressivos com a descoberta quase simultânea de duas classes de fármacos por vias independentes. Primeiro, observou-se que a iproniazida, um fármaco desenvolvido como tuberculostático, elevava o humor de pacientes, levando à sua introdução em 1957 como o primeiro inibidor da monoamina oxidase (IMAO) antidepressivo (López-Muñoz; Alamo, 2009). A iproniazida inibe irreversivelmente a MAO, enzima responsável pela degradação de monoaminas (noradrenalina, serotonina, dopamina), aumentando assim os níveis desses neurotransmissores no cérebro. Logo depois, também em 1957, a imipramina, originalmente sintetizada na busca de novos antipsicóticos tricíclicos, demonstrou efeito clinicamente benéfico em depressão, tornando-se o protótipo da classe dos antidepressivos tricíclicos (ADT) (López-Muñoz; Alamo, 2009). Esses dois medicamentos inauguraram a farmacoterapia moderna da depressão e embasaram a hipótese monoaminérgica da depressão, que propõe que sintomas depressivos resultam de déficits de neurotransmissão monoaminérgica central (particularmente serotonina e noradrenalina): hipótese que, embora simplista, norteou a pesquisa por décadas.
Nas décadas seguintes, novos IMAOs e ADTs foram desenvolvidos e amplamente utilizados. Dentre os IMAOs clássicos estão tranilcipromina, fenelzina e isocarboxazida, eficazes mas associados a consideráveis efeitos adversos, como crises hipertensivas se combinados a tiramina na dieta (a chamada “reação do queijo”), devido à inibição de MAO no intestino e fígado. Já os tricíclicos (assim chamados por sua estrutura com três anéis) como amitriptilina, clomipramina, nortriptilina e desipramina atuam principalmente bloqueando a recaptação de serotonina e noradrenalina nos neurônios pré-sinápticos, aumentando a disponibilidade sináptica dessas monoaminas (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022). Todavia, os ADTs também interagem com vários outros receptores (colinérgicos muscarínicos, histaminérgicos H\<sub>1\</sub>, adrenérgicos α\<sub>1\</sub>), acarretando efeitos colaterais significativos: sedação, xerostomia, constipação, retenção urinária, hipotensão ortostática, ganho de peso, além de cardiotoxicidade (arritmias) em superdose. Ainda assim, até os anos 1980, ADTs e IMAOs foram as opções predominantes, juntamente com alguns antidepressivos “atípicos” de segunda geração surgidos nos anos 1970–80 (como trazodona, mapa de ação dual como sedativo e antidepressivo, e bupropiona, um inibidor da recaptação de dopamina/noradrenalina).
Uma revolução no tratamento da depressão ocorreu no final dos anos 1980 com a introdução dos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS), inaugurada pela fluoxetina (Prozac®), aprovada em 1987 (López-Muñoz; Alamo, 2009). Os ISRS (fluoxetina, sertralina, paroxetina, citalopram, escitalopram, entre outros) foram desenvolvidos com base na hipótese de que a seletividade pela recaptação de 5-HT proporcionaria eficácia antidepressiva similar aos tricíclicos porém com menos efeitos adversos e maior segurança em caso de superdosagem. De fato, os ISRS mostraram perfil de tolerabilidade superior, sem os efeitos anticolinérgicos e cardiotóxicos dos ADTs, o que possibilitou seu uso em pacientes idosos e com comorbidades. Eles rapidamente se tornaram a classe de antidepressivos mais prescrita mundialmente a partir da década de 1990[biopsychiatry.com](https://www.biopsychiatry.com/antidepressants.pdf#:~:text=first%20aetiopathogenic%20hypotheses%20of%20de%02pressive,same%20action%20mechanism%2C%20which%20involves) [biopsychiatry.com](https://www.biopsychiatry.com/antidepressants.pdf#:~:text=the%20modulation%20of%20monoaminergic%20neuro%02transmission,modulate%20the%20intraneuronal%20biochemical%20pathways). Apesar de efeitos colaterais como disfunção sexual, insônia e agitação inicial, os ISRS tornaram o tratamento da depressão mais aceitável e estimularam a busca por fármacos ainda mais refinados.
Nos anos 1990 e 2000, surgiram os antidepressivos duales ou inibidores de recaptação de serotonina-noradrenalina (IRSN), como venlafaxina, duloxetina e milnaciprano. Esses fármacos bloqueiam o transportador de serotonina (SERT) e de noradrenalina (NET), aumentando ambos neurotransmissores. A racionalidade era combinar em um único agente a ação serotoninérgica e noradrenérgica para potencializar a eficácia. De fato, IRSNs mostram eficácia antidepressiva robusta, incluindo em dor crônica associada à depressão (pela modulação descendente noradrenérgica da dor). Seus efeitos adversos combinam os dos ISRS (por aumento de 5-HT) e alguns noradrenérgicos (como elevação pressórica dose-dependente no caso da venlafaxina). Outro avanço foi a introdução de fármacos com mecanismos inovadores: a mirtazapina (meados dos anos 1990) antagoniza autoreceptores α\<sub>2\</sub>-adrenérgicos (aumentando liberação de NA e 5-HT) e receptores 5-HT\<sub>2\</sub>/5-HT\<sub>3\</sub> (evitando alguns efeitos colaterais da serotonina), produzindo potente efeito ansiolítico e indutor de sono, útil para pacientes deprimidos com insônia e perda de peso (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022). A bupropiona (início dos 1980, mas ganho de popularidade nos 2000) inibe a recaptação de dopamina e noradrenalina, com mínimo efeito serotoninérgico, por isso não causa disfunção sexual e até auxilia cessação do tabagismo; pode, porém, induzir agitação e reduzir limiar convulsivo em altas doses. Fármacos mais recentes incluem a vilazodona (agonista parcial de 5-HT\<sub>1A\</sub> e ISRS) e a vortioxetina (modulador serotoninérgico multimodal, que além de inibir SERT interage como agonista/antagonista parcial em certos receptores 5-HT), procurando efeitos antidepressivos com impacto positivo em cognição.
Apesar da variedade de antidepressivos “convencionais”, um problema persistiu: a latência de semanas para início do efeito clínico significativo e a porcentagem substancial de pacientes com resposta inadequada. Essa limitação estimulou a pesquisa de estratégias alternativas. Uma das descobertas mais importantes das últimas décadas foi a de que agentes modulando o sistema glutamatérgico podem ter efeito antidepressivo rápido. Em 2000, um estudo pioneiro demonstrou que cetamina, um anestésico dissociativo e antagonista não competitivo de receptores NMDA de glutamato, produziu alívio rápido (dentro de horas) e pronunciado dos sintomas depressivos em pacientes com depressão resistente (Berman et al., 2000, citado por Riggs; Gould, 2021). Desde então, múltiplos ensaios confirmaram a eficácia antidepressiva de doses subanestésicas de cetamina intravenosa, revolucionando o campo ao mostrar ser possível reverter sintomas depressivos de forma aguda mesmo em casos resistentes (Riggs; Gould, 2021). Mecanisticamente, acredita-se que a cetamina desencadeie uma cascata de plasticidade sináptica: ao bloquear certos receptores NMDA em interneurônios inibitórios, aumenta a liberação de glutamato cortical, levando à estimulação de receptores AMPA pós-sinápticos e ativação de vias de sinalização que resultam em rápida síntese de fatores neurotróficos (como BDNF) e formação de novas espinhas dendríticas[pmc.ncbi.nlm.nih.gov](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8170851/#:~:text=The%20therapeutic%20onset%20of%20traditional,acting%20antidepressants). Essa hipótese de “restauração sináptica” contrasta com o mecanismo lento dos ISRS, que dependem de alterações gradativas na sensibilidade receptorial e expressão gênica. Em 2019, uma forma intranasal do isômero S-cetamina (esketamina) recebeu aprovação regulatória para depressão resistente, marcando o primeiro novo mecanismo antidepressivo em décadas. Além da cetamina, outros moduladores glutamatérgicos estão sob investigação (por exemplo, o agonista parcial de sítio glicina do NMDA, chamado GLYX-13 ou rapastinel).
Paralelamente, a compreensão da depressão expandiu-se para além da monoaminas, incorporando a hipótese neurotrófica, segundo a qual o estresse crônico e a depressão se associam a redução de BDNF e atrofia de neurônios do hipocampo e córtex, e o efeito terapêutico de antidepressivos envolveria reverter esses déficits neuroplásticos. Esse arcabouço ajuda a explicar por que agentes como cetamina, que estimulam diretamente sinaptogênese, têm efeito quase imediato, enquanto ISRS demoram a induzir aumento de BDNF e neurogênese hipocampal (Riggs; Gould, 2021).
Mais recentemente, têm ressurgido pesquisas com psicodélicos clássicos (psilocibina, LSD) e outras substâncias (por exemplo, MDMA) no tratamento da depressão e transtornos relacionados, dentro de protocolos clínicos controlados. Esses agentes agonizam receptores 5-HT\<sub>2A\</sub> e produzem estados mentais alterados que, aliados a acompanhamento psicoterápico, mostraram benefícios sintomáticos em estudos iniciais, inclusive em depressão resistente. Embora promissores, tais tratamentos ainda não fazem parte do arsenal padrão e enfrentam desafios regulatórios e de padronização.
Resumindo, em cerca de 70 anos avançamos de um cenário com nenhuma droga específica para depressão para uma paleta diversificada de antidepressivos: desde os primeiros IMAOs e tricíclicos, passando pelos ISRS e IRSN de segunda geração com melhor perfil de segurança, até abordagens contemporâneas voltadas a novos sistemas neurotransmissores (glutamatérgico) ou combinações sinápticas multimodais. Todos os antidepressivos aprovados agem, direta ou indiretamente, aumentando a transmissão de monoaminas no cérebro, o que confirma a importância dessa via na patogênese da depressão (López-Muñoz; Alamo, 2009). Entretanto, as altas taxas de não-resposta e remissão incompleta impulsionam a busca contínua por novas estratégias. A identificação de agentes de ação rápida como cetamina abriu uma via radicalmente diferente de terapêutica, sugerindo que o “próximo capítulo” na evolução dos antidepressivos poderá incluir medicamentos que modulam plasticidade neural de forma direta e rápida, corrigindo circuitos neurais disfuncionais além do reequilíbrio químico monoaminérgico (Riggs; Gould, 2021).
3.4 Antipsicóticos: Mecanismos e Vias Neurais
Os antipsicóticos (também chamados neurolépticos) englobam os fármacos utilizados principalmente para tratar esquizofrenia e outros transtornos psicóticos, assim como para manejo de mania e certos distúrbios comportamentais graves. A introdução do primeiro antipsicótico efetivo, a clorpromazina, em 1952, foi um marco da psicofarmacologia que permitiu o esvaziamento de hospitais psiquiátricos e confirmou a base orgânica da esquizofrenia (López-Muñoz; Alamo, 2009). A clorpromazina, um derivado fenotiazínico inicialmente sintetizado como anti-histamínico sedativo, demonstrou controlar agitação e sintomas delirantes/aletados em pacientes psiquiátricos. Poucos anos depois, o haloperidol (butirofenona) foi desenvolvido, consolidando a classe dos antipsicóticos típicos ou de primeira geração, caracterizados principalmente por bloquearem receptores dopaminérgicos D\<sub>2\</sub> em nível cerebral (Tuplin; Holahan, 2017).
O mecanismo de ação principal dos antipsicóticos típicos é a antagonização dos receptores D\<sub>2\</sub> pós-sinápticos nas vias mesolímbica e mesocortical. A hipótese dopaminérgica da esquizofrenia propõe que o excesso de atividade da dopamina mesolímbica cause sintomas positivos psicóticos; de fato, todos os antipsicóticos eficientes compartilham a propriedade de reduzir a sinalização via D\<sub>2\</sub> (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022). Estudos de neuroimagem mostram que cerca de 65–80% de bloqueio dos receptores D\<sub>2\</sub> estriatais é necessário para efeito antipsicótico, enquanto bloqueios acima de ~78% associam-se a alto risco de sintomas extrapiramidais (EPS) (Kapur et al., 2000, apud Tuplin; Holahan, 2017). Os antipsicóticos típicos variam em potência: por exemplo, haloperidol é de alta potência (bloqueia D\<sub>2\</sub> fortemente com pouca ação em outros receptores), ao passo que clorpromazina é de baixa potência e além de antagonizar D\<sub>2\</sub> também bloqueia receptores H\<sub>1\</sub>, α\<sub>1\</sub> e muscarínicos, resultando em sedação e efeitos anticolinérgicos. Em comum, porém, todos reduzem efetivamente delírios e alucinações em uma proporção significativa de pacientes, confirmando o papel central da dopamina mesolímbica.
Entretanto, a farmacodinâmica generalizada do bloqueio dopaminérgico explica os efeitos adversos importantes dos neurolépticos típicos, conforme mencionado na seção 3.2. O bloqueio de D\<sub>2\</sub> na via nigroestriatal produz os sintomas extrapiramidais: parkinsonismo (bradicinesia, rigidez, tremor) semelhante à doença de Parkinson, que pode surgir dias após iniciar o tratamento; acatisia (inquietação motora e ansiedade); distonias agudas (espasmos musculares, torcicolo oculógiro); e, com uso crônico, o risco de discinesia tardia, movimentos involuntários orofaciais potencialmente irreversíveis, associados à superssensibilização de receptores D\<sub>2\</sub> após bloqueio prolongado (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022). O bloqueio de D\<sub>2\</sub> na via tuberoinfundibular remove a inibição da secreção de prolactina, causando hiperprolactinemia: nas mulheres, galactorreia e amenorreia; nos homens, ginecomastia, impotência e redução de libido. Além disso, antipsicóticos típicos (especialmente fenotiazinas de baixa potência) causam sedação (bloqueio de H\<sub>1\</sub>), hipotensão ortostática (bloqueio α\<sub>1\</sub>-adrenérgico) e efeitos anticolinérgicos periféricos (visão turva, constipação, boca seca, retenção urinária). Uma complicação rara porém grave é a síndrome neuroléptica maligna, caracterizada por rigidez muscular extrema, febre alta, disfunção autonômica e alteração de consciência. Acredita-se estar relacionada a bloqueio maciço de dopamina em todo o SNC, exigindo suspensão do fármaco e medidas intensivas (inclusive uso de dantrolene e bromocriptina) (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022).
Devido a essas limitações, buscou-se desenvolver antipsicóticos com menos efeitos extrapiramidais e que também abordassem os sintomas negativos e cognitivos da esquizofrenia (tais como embotamento afetivo, retraimento social e déficit de atenção), os quais tipicamente respondem pouco aos antipsicóticos típicos. Isso levou ao surgimento dos antipsicóticos de segunda geração ou atípicos a partir dos anos 1990. O protótipo dos atípicos é a clozapina, sintetizada nos anos 1960 e introduzida nos 1970. A clozapina mostrou eficácia em pacientes resistentes ao haloperidol e não causava EPS significativos, porém, provocava agranulocitose em cerca de 1% dos pacientes, um efeito adverso hematológico potencialmente fatal, limitando seu uso apenas a casos refratários com monitorização rigorosa. A clozapina revelou um perfil farmacológico distinto: além de bloquear receptores D\<sub>2\</sub> (com afinidade moderada), possui alta afinidade por receptores 5-HT\<sub>2A\</sub>, bem como ação em D\<sub>4\</sub>, 5-HT\<sub>2C\</sub>, muscarínicos e outros. Essa multirreceptorialidade foi hipótese para seu efeito benéfico mais amplo (incluindo melhora de sintomas negativos) e menor propensão a EPS.
Os antipsicóticos atípicos subsequentes (risperidona, olanzapina, quetiapina, ziprasidona, aripiprazol, entre outros) em geral compartilham a característica de antagonismo serotoninérgico 5-HT\<sub>2A\</sub> combinado ao bloqueio dopaminérgico D\<sub>2\</sub>, embora cada um tenha perfil único (Tuplin; Holahan, 2017). O racional do antagonismo 5-HT\<sub>2A\</sub> baseia-se na interação entre sistemas serotoninérgico e dopaminérgico: neurônios dopaminérgicos nigroestriatais e corticais possuem receptores 5-HT\<sub>2A\</sub> cujo bloqueio promove liberação de dopamina nessas regiões. Assim, um antipsicótico que bloqueia 5-HT\<sub>2A\</sub> pode aumentar a dopamina endógena nigroestriatal, compensando parcialmente o bloqueio de D\<sub>2\</sub> e reduzindo o risco de EPS (Meltzer, 1991, apud Tuplin; Holahan, 2017). Da mesma forma, em córtex pré-frontal, a inibição de 5-HT\<sub>2A\</sub> eleva dopamina mesocortical, o que poderia melhorar sintomas negativos/cognitivos decorrentes de hipotonia dopaminérgica nessa via. Risperidona foi o primeiro atípico amplamente usado (lançado em 1993), seguida de olanzapina, quetiapina, ziprasidona e outros, todos com menor incidência de parkinsonismo e discinesia tardia em doses terapêuticas (Tuplin; Holahan, 2017). Entretanto, esses benefícios vieram acompanhados de novos efeitos adversos: vários atípicos, especialmente clozapina e olanzapina, causam síndrome metabólica, com ganho ponderal significativo, dislipidemia e risco de diabetes tipo 2 (Cortes-Altamirano et al., 2018). Esse efeito se deve em parte ao bloqueio de receptores H\<sub>1\</sub> e 5-HT\<sub>2C\</sub>, que regulam apetite e metabolismo. Risperidona e paliperidona ainda podem elevar prolactina de forma dose-dependente. Assim, a escolha do antipsicótico considera equilibrar eficácia e perfil de efeitos adversos conforme o paciente.
Mais recentemente, surgiram os chamados antipsicóticos de terceira geração, representados pelo aripiprazol, brexpiprazol e cariprazina. O aripiprazol possui um mecanismo único, agindo como agonista parcial dos receptores D\<sub>2\</sub> e 5-HT\<sub>1A\</sub>, além de antagonista 5-HT\<sub>2A\</sub> (Shapiro et al., 2003, apud Tuplin; Holahan, 2017). Como agonista parcial, o aripiprazol pode tanto ativar receptores D\<sub>2\</sub> quando a dopamina endógena é baixa quanto bloqueá-los (competindo com a dopamina), quando esta está em excesso, funcionando como um estabilizador do sistema dopaminérgico. Clinicamente, ele é efetivo contra sintomas positivos e apresenta baixo risco de provocar EPS ou hiperprolactinemia, mesmo exigindo elevada ocupação dos receptores D\<sub>2\</sub> (>90%) para exercer efeito (Tuplin; Holahan, 2017). Acredita-se que sua ativação parcial não atinja a mesma magnitude que a dopamina plena, evitando tanto hiperestimulação quanto supressão completa das vias dopaminérgicas. O aripiprazol também tende a ser neutro ou causar menor ganho de peso comparado a outros atípicos. Brexpiprazol e cariprazina são moléculas posteriores com mecanismo semelhante (agonismo parcial D\<sub>2\</sub>/5-HT\<sub>1A\</sub>), mas ligeiras diferenças de receptor (cariprazina tem alta afinidade por D\<sub>3\</sub>, possivelmente melhorando sintomas cognitivos).
Em termos de vias neurais, a eficácia antipsicótica provém principalmente da modulação da via mesolímbica hiperativa. Ao reduzir a sinalização dopaminérgica nessa via (por bloqueio D\<sub>2\</sub> ou agonismo parcial), os delírios e alucinações tendem a regredir. No entanto, o bloqueio concomitante da via mesocortical já hipoativa pode piorar sintomas negativos. Razão pela qual atípicos com menos bloqueio líquido mesocortical (devido ao efeito 5-HT\<sub>2A\</sub>) podem dar resultados melhores nesse domínio. A via nigroestriatal, como visto, explica os EPS, e a tuberoinfundibular, a prolactina, ambas sendo “preço a pagar” pelo bloqueio dopaminérgico generalizado. Adicionalmente, evidências sugerem que além da dopamina, a esquizofrenia envolve disfunção glutamatérgica, especificamente redução da função dos receptores NMDA em interneurônios GABAérgicos, levando a um circuito cortical hiperestimulatório. Essa hipótese glutamatérgica da esquizofrenia decorre do fato de antagonistas NMDA (fenciclidina, cetamina) provocarem sintomas semelhantes aos da esquizofrenia em indivíduos saudáveis, incluindo sintomas negativos e cognitivos que os agonistas dopaminérgicos não explicam (Coyle, 2012). Embora ainda não haja antipsicóticos glutamatérgicos aprovados, há pesquisas em curso com moduladores alostéricos de receptores NMDA e agonistas de receptores metabotrópicos de glutamato (mGlu2/3) para tentar tratar a esquizofrenia por esse ângulo, potencialmente melhorando os déficits residuais que a terapia dopaminérgica não alcança.
3.5 Receptores de Glutamato: NMDA, AMPA, Cainato, Metabotrópicos
O glutamato é o principal neurotransmissor excitador do sistema nervoso central, presente em mais de 50% das sinapses cerebrais. Ele atua sobre dois grandes tipos de receptores: os ionotrópicos (iGluRs), que são canais iônicos controlados por ligante permeáveis a cátions, e os metabotrópicos (mGluRs), que são acoplados a proteínas G. Essa dualidade confere ao glutamato um papel versátil, mediando desde a transmissão sináptica rápida e excitação neuronal aguda até modulação lenta de redes neuronais e plasticidade sináptica de longo prazo (Kandel et al., 2021; Traynelis et al., 2010).
Receptores Ionotrópicos de Glutamato: subdividem-se em três classes (NMDA, AMPA e cainato) nomeadas conforme agonistas sintéticos seletivos (N-metil-D-aspartato, ácido α-amino-3-hidroxi-5-metil-4-isoxazolpropiónico e cainato, respectivamente). Estruturalmente, todos os iGluRs são tetrâmeros formados por subunidades proteicas que se organizam para formar um canal iônico no centro. Quando duas moléculas de glutamato (ou do agonista) ligam-se aos sítios extracelulares apropriados, ocorre mudança conformacional que abre o poro do canal, permitindo fluxo de íons e despolarização celular (Traynelis et al., 2010).
Receptores AMPA: são responsáveis pela componente excitatória rápida da maioria das sinapses glutamatérgicas. São permeáveis principalmente a Na\<sup>+\</sup> e K\<sup>+\</sup>, com algumas subunidades conferindo permeabilidade a Ca\<sup>2+\</sup> (ausência da subunidade GluA2 torna o canal Ca\<sup>2+\</sup>-permeável). A ativação de AMPA resulta em influxo de Na\<sup>+\</sup>, despolarizando rapidamente a célula pós-sináptica. Receptores AMPA apresentam cinética rápida de ativação/inativação e dessensibilização em milissegundos. Eles são essenciais para a transmissão sináptica basal e sua modulação (p. ex., fosforilação de subunidades AMPA ou inserção/remoção de receptores da membrana) está na base de fenômenos de plasticidade como potenciação de longo prazo (LTP) e depressão de longo prazo (LTD), que correlacionam-se com aprendizagem e memória (Kandel et al., 2021).
Receptores NMDA: apresentam propriedades únicas que os fazem atuar como detectores de coincidência e mediadores de plasticidade sináptica. Diferentemente dos AMPA, os canais NMDA são altamente permeáveis a Ca\<sup>2+\</sup> além de Na\<sup>+\</sup>/K\<sup>+\</sup>, e seu funcionamento depende de dois eventos: ligação de ligante e despolarização. Em potencial de repouso, o poro do NMDA encontra-se bloqueado por íons Mg\<sup>2+\</sup> que se alojam no canal. Para que haja corrente através do NMDA, a célula pós-sináptica precisa estar previamente despolarizada (por exemplo, via ativação de AMPA), expulsando o Mg\<sup>2+\</sup> por força eletrostática; simultaneamente, glutamato (e um coagonista, glicina ou D-serina) devem ligar-se ao receptor. Somente nessas condições o canal NMDA abre, permitindo influxo de Ca\<sup>2+\</sup> e Na\<sup>+\</sup> (Mayer et al., 1984). Essa dependência de voltagem e ligante confere ao NMDA a propriedade de detectar quando uma terminação pré-sináptica ativa coincide com despolarização pós-sináptica, condição necessária para induzir LTP. A entrada de Ca\<sup>2+\</sup> via NMDA aciona cascatas de sinalização intracelular que fortalecem a sinapse (p. ex., promovendo inserção de mais receptores AMPA), consolidando memórias (Kandel et al., 2021). Em contrapartida, níveis excessivos e prolongados de Ca\<sup>2+\</sup> intracelular podem desencadear vias de morte celular (ativando enzimas proteolíticas, gerando radicais livres): fenômeno chamado excotoxicidade glutamatérgica, implicado na lesão neuronal de isquemias, traumatismos e possivelmente em neurodegeneração. Antagonistas de NMDA (como cetamina, fenciclidina) causam dissociação e sintomas psicóticos, sugerindo que uma função NMDA adequada é necessária para a cognição normal (Coyle, 2012).
Receptores Cainato: menos expressos que AMPA e NMDA, estão presentes em algumas regiões (hipocampo, córtex). Têm cinética de ativação intermediária e conduzem Na\<sup>+\</sup>/K\<sup>+\</sup> e um pouco de Ca\<sup>2+\</sup>. Além de mediar excitação pós-sináptica em certas sinapses, receptores cainato localizados pré-sinapticamente podem modular a liberação de neurotransmissores (glutamato e GABA) por mecanismos de feedback. Farmacologicamente, receptores cainato são menos explorados, embora ácido cainico (agonista potente) cause neurotoxicidade e seja utilizado em modelos experimentais de epilepsia.
Receptores Metabotrópicos de Glutamato (mGluRs): constituem uma família distinta de receptores glutamatérgicos acoplados à proteína G. Até o momento foram identificados 8 subtipos de mGluR, denominados mGluR\<sub>1\</sub> a mGluR\<sub>8\</sub>, os quais se organizam em três grupos com base em homologia de sequência, cascatas de sinalização e preferência de agonistas: Grupo I (mGlu\<sub>1\</sub> e mGlu\<sub>5\</sub>; Grupo II) mGlu\<sub>2\</sub> e mGlu\<sub>3\</sub>; Grupo III, mGlu\<sub>4\</sub>, mGlu\<sub>6\</sub>, mGlu\<sub>7\</sub> e mGlu\<sub>8\</sub> (Niswender; Conn, 2010). Os mGluRs do Grupo I são acoplados à proteína G\<sub>q\</sub> e portanto ativam a fosfolipase C, aumentando IP\<sub>3\</sub>/DAG e mobilizando Ca\<sup>2+\</sup> intracelular. Já os Grupos II e III acoplam-se à proteína G\<sub>i/o\</sub>, inibindo a adenilil ciclase e reduzindo AMPc (Niswender; Conn, 2010). Outra diferença funcional importante é a localização sináptica: mGluR\<sub>1\</sub> e mGluR\<sub>5\</sub> (Grupo I) são principalmente pós-sinápticos, muitas vezes localizados em regiões peri-sinápticas (fora da fenda sináptica principal), onde modulam a excitabilidade neuronal e plasticidade (por exemplo, a ativação excessiva de mGluR\<sub>1\</sub>/5 pode contribuir para hiperexcitabilidade em convulsões); em contrapartida, mGluR dos Grupos II e III estão tipicamente pré-sinápticos (auto- ou heterorreceptores), atuando como freio na liberação de neurotransmissores: quando ativados pelo glutamato liberado, eles suprimem a exocitose de glutamato ou GABA, servindo a retroalimentação negativa (Niswender; Conn, 2010). Essa organização permite regulação fina: por exemplo, durante alta frequência de disparos, o glutamato difunde para fora da fenda e ativa mGluR\<sub>2\</sub>/3 nos terminais, inibindo liberação adicional e prevenindo excitotoxicidade.
Farmacologicamente, os mGluRs tornaram-se alvo de interesse para diversas condições neurológicas e psiquiátricas. Moduladores alostéricos positivos de mGluR\<sub>2\</sub> (Grupo II) foram investigados como antipsicóticos potenciais, pois reduziram a liberação excessiva de glutamato cortical associada à hiperatividade dopaminérgica, embora resultados clínicos até agora tenham sido modestos. Antagonistas de mGluR\<sub>5\</sub> foram testados em ansiedade e para tratar sintomas de abstinência em dependência, devido ao seu papel em plasticidade nas vias de recompensa. No campo das convulsões e dor crônica, agonistas de mGluR\<sub>2\</sub>/3 (que inibem a liberação de glutamato) podem ter efeito neuromodulador benéfico, enquanto antagonistas de mGluR\<sub>1\</sub>/5 (que reduzem a excitabilidade pós-sináptica) apresentam efeitos anticonvulsivantes e analgésicos em modelos animais. Contudo, desenvolver fármacos seletivos para mGluRs é desafiador, e poucos chegaram à clínica até o momento.
Em resumo, os receptores de glutamato formam um conjunto complexo que permite ao glutamato exercer diferentes tempos e modos de ação. Os ionotrópicos NMDA/AMPA proporcionam a transmissão excitatoria rápida e mudanças sinápticas duráveis relacionadas à memória, enquanto os metabotrópicos modulam circuitos e excitabilidade de forma lenta e difusa. Alterações nesses receptores podem levar a patologias: por exemplo, a disfunção de NMDA em corticolímbicas é implicada na esquizofrenia, a hiperatividade de AMPA e diminuição de inibição mGluR pode ocorrer em epilepsia, e a excitotoxicidade via NMDA está associada à morte neuronal em isquemia e Alzheimer. Não por acaso, memantina, um bloqueador não competitivo de baixa afinidade dos receptores NMDA, é utilizada no tratamento da fase moderada/grave da doença de Alzheimer para atenuar excitotoxicidade glutamatérgica e declínio cognitivo (ver seção 3.7). Assim, o sistema glutamatérgico continua a ser foco de intensa pesquisa, tanto para compreender a fisiologia da plasticidade cerebral quanto para desenvolver terapias inovadoras para doenças neuropsiquiátricas.
3.6 Benzodiazepínicos e Barbitúricos: Farmacodinâmica e Segurança
Os benzodiazepínicos (BZDs) e barbitúricos são sedativo-hipnóticos que atuam primariamente sobre o sistema GABAérgico, o principal sistema inibitório do cérebro. O ácido γ-aminobutírico (GABA) exerce seus efeitos inibitórios principalmente através do receptor GABA\<sub>A\</sub>, que é um receptor canal iônico (ionotrópico) permeável a Cl\<sup>−\</sup>: ao ser ativado por GABA, o canal abre e entra cloreto na célula, hiperpolarizando-a e reduzindo sua excitabilidade. Tanto BZDs quanto barbitúricos modulam alostericamente o receptor GABA\<sub>A\</sub>, porém de maneiras distintas, o que impacta sua eficácia e segurança (Rang et al., 2019; Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022).
Benzodiazepínicos: incluem fármacos amplamente conhecidos como diazepam, lorazepam, midazolam, alprazolam, clonazepam, entre outros. Eles ligam-se a um sítio alostérico específico na interface entre subunidades α e γ do receptor GABA\<sub>A\</sub>, presente somente em receptores que contenham certas isoformas (α\<sub>1\</sub>, α\<sub>2\</sub>, α\<sub>3\</sub> ou α\<sub>5\</sub> associadas a subunidade γ\<sub>2\</sub>)[ncbi.nlm.nih.gov](https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK519503/#:~:text=The%20first,receptor%20is%20most%20commonly%20involved) [ncbi.nlm.nih.gov](https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK519503/#:~:text=D2%20dopamine%20receptors%20in%20the,receptor%20is%20most%20commonly%20involved). Ao se ligar, o benzodiazepínico aumenta a afinidade do receptor pelo GABA endógeno, ou seja, potencializa a frequência de abertura do canal de Cl\<sup>−\</sup> induzida pelo GABA (sem, contudo, ativar o receptor diretamente na ausência de GABA). Em termos práticos, os BZDs potencializam a inibição GABAérgica neuronal, causando efeitos depressores do SNC dose-dependentes: ansiolítico em doses baixas, sedativo-hipnótico (indutor de sono) em doses moderadas, relaxante muscular e anticonvulsivante em doses mais altas (Goodman & Gilman, 2018; Rang et al., 2019). Como os BZDs não substituem o GABA, mas apenas amplificam sua ação, seu efeito tem um “teto”, limitado pela quantidade de GABA disponível e pelo fato de precisarem de neurotransmissor para exercer ação.
A farmacocinética dos benzodiazepínicos varia amplamente: alguns têm meia-vida curta (midazolam, triazolam), produzindo efeito hipnótico breve sem prolongar sedação diurna; outros têm longa duração (diazepam, clonazepam), acumulando-se se uso crônico. Muitos BZDs formam metabólitos ativos, prolongando efetivamente sua ação. Clinicamente, são indicados para ansiedade aguda, insônia de curto prazo, status epiléptico (diazepam/lorazepam EV), espasticidade muscular, sedação pré-operatória, entre outros. Seus efeitos adversos mais comuns decorrem de depressão do SNC: sonolência, letargia, redução da coordenação motora e reflexos (prejudicando dirigir ou operar máquinas), além de efeito amnésico anterógrado (especialmente com doses sedativas ou formulações de ação rápida, útil até certo ponto em procedimentos). Quando combinados com outros depressores do SNC (álcool, opioides), os BZDs podem levar a depressão respiratória somatória. Isoladamente, entretanto, os benzodiazepínicos possuem índice terapêutico elevado: superdosagens, embora causem ataxia e sono profundo, raramente são letais a menos que combinadas com outros depressores; existe inclusive um antídoto específico, o flumazenil (antagonista competitivo do sítio benzodiazepínico no GABA\<sub>A\</sub>), que reverte seus efeitos em intoxicações ou recuperação anestésica.
Um aspecto crítico dos benzodiazepínicos é o potencial de tolerância e dependência. O uso prolongado, especialmente de BZDs de ação curta e alta potência (p.ex. alprazolam), pode levar à tolerância nos efeitos hipnóticos e ansiolíticos e à dependência física, com síndrome de abstinência caracterizada por ansiedade rebote, insônia, irritabilidade, e em casos graves, convulsões. Por isso, recomenda-se uso por períodos limitados e desmame gradual. Ainda assim, comparados aos barbitúricos e outros sedativos mais antigos, os BZDs são significativamente mais seguros, o que explica terem substituído os barbitúricos em grande parte das indicações desde os anos 1960.
Barbitúricos: representados por fármacos como fenobarbital, pentobarbital, tiopental, foram introduzidos no início do século XX e por décadas reinaram como ansiolíticos e hipnóticos, além de anticonvulsivantes. Eles também modulam o receptor GABA\<sub>A\</sub>, porém se ligam a um sítio distinto (na subunidade β) e de forma menos seletiva que os BZDs. Farmacodinamicamente, os barbitúricos prolongam a duração de abertura do canal de Cl\<sup>−\</sup> quando GABA está ligado. Em doses elevadas, podem diretamente abrir o canal mesmo na ausência de GABA, o que confere a eles um poder inibitório bem maior, porém também muito mais perigoso (Rang et al., 2019). Consequentemente, os barbitúricos não possuem um teto claro de efeito: doses progressivamente maiores levam da sedação à anestesia cirúrgica e eventualmente à depressão medular e morte (por colapso cardiorrespiratório). Isso se reflete no índice terapêutico baixo: a dose letal é apenas 10 vezes (ou menos) a dose hipnótica habitual para alguns barbitúricos, ao contrário dos BZDs que têm margem muito mais ampla. Além disso, não há antídoto específico para intoxicação barbitúrica; o tratamento é de suporte (ventilação, suporte cardiovascular) até o fármaco ser eliminado.
Os barbitúricos exibem diferenças conforme a lipossolubilidade, influenciando início e duração de ação. O tiopental, altamente lipossolúvel, atravessa rápido a barreira hematoencefálica causando indução anestésica em segundos, mas redistribui-se para tecidos periféricos, terminando efeito em minutos (ultracurta duração). Fenobarbital é polar, absorvido mais lentamente e com meia-vida longa, adequado para controle crônico de epilepsia. Em geral, o uso terapêutico de barbitúricos declinou devido ao risco de depressão respiratória fatal, à indução de tolerância e dependência marcantes e à interação medicamentosa (são potentes indutores de enzimas hepáticas do citocromo P450, acelerando o metabolismo de vários medicamentos). Hoje, a indicação mais comum de barbitúricos é epilepsia refratária (fenobarbital) e indução anestésica (tiopental, em alguns contextos), tendo sido suplantados por BZDs em ansiedade/insônia.
Comparação de segurança: Os benzodiazepínicos, como citado, apresentam melhor perfil de segurança que barbitúricos. Em sobredose isolada, BZDs dificilmente causam depressão respiratória letal graças ao teto imposto pela necessidade de GABA presente (Hall; Hall, 2021). Já os barbitúricos, especialmente de ação curta como secobarbital ou pentobarbital, podem levar rapidamente ao coma e depressão respiratória. Clinicamente, a diferença de segurança foi dramática: a mortalidade por suicídio medicamentoso diminuiu após a substituição de barbitúricos por benzodiazepínicos para insônia e ansiedade nas décadas de 1960-70. Outro ponto é a dependência: embora ambos causem, a síndrome de abstinência de barbitúricos é mais perigosa (podendo ser semelhante à do álcool, com risco de delirium tremens e morte), ao passo que a de BZDs, embora desconfortável, raramente é fatal.
Adicionalmente, existem os “Z-drugs” (zolpidem, zopiclona, zaleplon), hipnóticos não benzodiazepínicos introduzidos nos anos 1990 que se ligam ao mesmo sítio benzodiazepínico do receptor GABA\<sub>A\</sub>, porém com seletividade sobretudo para subunidades α\<sub>1\</sub>. Eles produzem efeito sonífero semelhante a BZDs mas com pouca ação ansiolítica ou anticonvulsivante, e meia-vidas curtas que minimizam sonolência residual. Seu perfil de segurança também é semelhante ao dos BZDs, e por atuarem no mesmo receptor, o flumazenil reverte seus efeitos. São amplamente utilizados para insônia de curto prazo como alternativa aos benzodiazepínicos tradicionais.
Em conclusão, benzodiazepínicos e barbitúricos ilustram dois enfoques de modulação do receptor GABA\<sub>A\</sub> que resultam em diferenças marcantes na janela terapêutica. Os BZDs, ao potenciar fisiologicamente o GABA, tornaram-se preferidos pela eficácia com segurança relativamente alta no uso clínico como ansiolíticos, hipnóticos e anticonvulsivantes de emergência. Os barbitúricos, apesar de historicamente importantes e ainda úteis em alguns cenários, caíram em desuso para indicações cotidianas devido ao risco de depressão fatal do SNC e às interações farmacológicas. O conhecimento de sua farmacologia serve de base para o desenvolvimento de novos moduladores GABAérgicos que mantenham a eficácia terapêutica com menor risco de dependência e toxicidade.
3.7 Fisiopatologia e Tratamento Farmacológico da Doença de Alzheimer
A doença de Alzheimer (DA) é a causa mais comum de demência neurodegenerativa, caracterizada clinicamente por declínio progressivo da memória e outras funções cognitivas, e neuropatologicamente pela atrofia cortical difusa associada à deposição cerebral de placas β-amiloides e emaranhados neurofibrilares de proteína tau hiperfosforilada. A etiologia da DA é complexa e multifatorial, envolvendo fatores genéticos (por exemplo, alelos da apolipoproteína E, mutações em genes de proteína precursora do amiloide ou presenilinas nas formas familiares precoces) e ambientais. Diversas hipóteses foram propostas para explicar a cascata patogênica, dentre elas: a hipótese colinérgica, que sugere que a perda de neurônios colinérgicos no prosencéfalo basal (especialmente no núcleo basal de Meynert) leva ao déficit de acetilcolina cortical, contribuindo para o comprometimento de memória; a hipótese do amiloide, que atribui papel central ao acúmulo de oligômeros e placas de peptídeo β-amiloide (derivado da clivagem anormal da proteína precursora) iniciando uma cascata neurotóxica; e a hipótese da tau, na qual alterações pós-traducionais da proteína tau levam a microtúbulos disfuncionais e degeneração neuronal correlacionada com a gravidade clínica (Zhang et al., 2024). Além disso, fenômenos de inflamação neurogênica, estresse oxidativo, dis-homeostase de íons metálicos (como cobre e zinco), excitotoxicidade glutamatérgica crônica e até alterações da microbiota-intestino-cérebro têm sido implicados como partes do mosaico fisiopatológico da DA (Zhang et al., 2024).
Embora a patogênese completa não seja totalmente compreendida, é bem documentado que na DA ocorre uma marcada perda de sinapses e neurônios colinérgicos corticais e hipocampais, o que motivou a única estratégia terapêutica efetiva durante muitos anos: potencializar a neurotransmissão colinérgica remanescente (Guyton; Hall, 2021). Assim, os primeiros fármacos aprovados para DA, ainda na década de 1990, foram os inibidores da acetilcolinesterase (IAChE): tacrina (hoje obsoleta pelos efeitos hepatotóxicos), donepezila, rivastigmina e galantamina. Esses medicamentos elevam a concentração de acetilcolina nas sinapses ao inibir sua degradação enzimática, aumentando a estimulação dos receptores muscarínicos e nicotínicos nos circuitos da memória e cognição. Clinicamente, os IAChE proporcionam melhora modesta mas significativa em desempenho cognitivo e atividades diárias em pacientes com DA leve a moderada, ou ao menos retardam a piora por cerca de 6 a 12 meses em uma parcela dos casos (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022). Seus efeitos adversos decorrem do excesso colinérgico periférico (náuseas, vômitos, diarreia, cólicas abdominais, sudorese, bradicardia) o que requer titulação cuidadosa da dose.
Outro alvo sintomático explorado é o sistema glutamatérgico. A ativação crônica e desregulada de receptores NMDA pelo tônus basal de glutamato foi proposta como contribuinte de excitotoxicidade de baixo nível levando à morte neuronal na DA. Com base nisso, introduziu-se o fármaco memantina, um antagonista não competitivo de baixa a moderada afinidade pelos receptores NMDA, que teoricamente bloqueia o efeito tônico neurotóxico do glutamato excessivo sem interferir nas transmissões fásicas normais (pois a memantina desocupa o canal durante despolarizações intensas)[pmc.ncbi.nlm.nih.gov](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4428540/#:~:text=match%20at%20L590%20Noncompetitive%20NMDA,binding%20site%20of%20NMDA%20receptors). A memantina demonstrou benefício funcional em pacientes com DA moderada a grave, isolada ou em associação a um IAChE, levando à aprovação em meados dos anos 2000 (Brunton; Knollmann; Hilal-Dandandan, 2022). Seus efeitos colaterais são geralmente leves (tontura, confusão, alucinações em alguns casos, possivelmente por bloqueio de NMDA excessivo em certas regiões). Assim, até recentemente, o tratamento farmacológico padrão da DA consistia em inibidores de acetilcolinesterase para fases leve e moderada, e memantina adicionada nas fases moderada-avançada. Abordagens que são sintomáticas, isto é, melhoram neurotransmissão mas não alteram o curso subjacente da neurodegeneração.
A grande busca na última década tem sido por terapias modificadoras da doença, voltadas a interferir nos processos patológicos fundamentais, especialmente a acumulação de β-amiloide e tau. Diversas estratégias foram investigadas: vacinas anti-amiloide, anticorpos monoclonais contra formas agregadas de Aβ, inibidores de enzimas secretases envolvidas na geração do peptídeo Aβ, fármacos anti-agregantes de tau, etc. Após múltiplos fracassos clínicos, em 2021 ocorreu a controversa aprovação acelerada pela FDA do aducanumabe, um anticorpo monoclonal que se liga a agregados de Aβ e promove sua depuração pelo sistema imune. Essa aprovação baseou-se principalmente em evidências de que o aducanumabe reduz placas amiloides cerebrais visualizadas por PET, embora a eficácia clínica (melhora ou retardamento do declínio cognitivo) tenha sido questionável nos ensaios e gerado intenso debate na comunidade médica[nature.com](https://www.nature.com/articles/s41392-024-01911-3#:~:text=have%20been%20discontinued%20due%20to,highlight%20recent%20progress%20in%20the) [nature.com](https://www.nature.com/articles/s41392-024-01911-3#:~:text=accompanied%20by%20undesirable%20side%20effects,Consequently%2C%20the%20quest%20for). Em 2023, um estudo robusto com o anticorpo lecanemabe (dirigido a oligômeros/protofibrilas solúveis de Aβ) demonstrou uma redução estatisticamente significativa no declínio cognitivo em pacientes com DA inicial ao longo de 18 meses, ao mesmo tempo em que confirmou a remoção do amiloide cerebral (Van Dyck et al., 2023). Embora o efeito clínico seja modesto (uma desaceleração da progressão em ~25% comparado ao placebo), lecanemabe recebeu aprovação nos EUA e representou a primeira validação clínica da hipótese amiloide (van Dyck et al., 2023). Outro anticorpo, donanemabe, focado em um epítopo específico do fibrilo Aβ, também mostrou em 2023 retardar o declínio em um estudo de fase 3, especialmente em pacientes com carga amiloide alta mas tau não muito avançada.
Esses imunoterápicos anti-amiloide trazem, entretanto, riscos notáveis, em particular uma reação inflamatória-vacular conhecida como ARIA (amyloid-related imaging abnormalities), que pode se manifestar como edema cerebral ou micro-hemorragias no cérebro de alguns pacientes tratados (em geral, transitórios e assintomáticos, mas demandando monitorização por imagem)[nature.com](https://www.nature.com/articles/s41392-024-01911-3#:~:text=accompanied%20by%20undesirable%20side%20effects,target%20inhibitors%2C%20allosteric). Assim, apesar de marcarem um avanço, tais tratamentos requerem infusões intravenosas periódicas, custo elevadíssimo e cuidadosa seleção/monitorização dos pacientes. Além disso, não tratam as alterações tau, que correlacionam-se mais diretamente com a neurodegeneração e sintomas; por isso, combiná-los ou segui-los de terapias anti-tau é uma possibilidade em estudo.
No momento, o manejo da DA ainda envolve uma abordagem multimodal: intervenções não farmacológicas (treino cognitivo, atividade física, suporte ao cuidador), tratamento dos sintomas cognitivos com IAChE e memantina, tratamento de sintomas neuropsiquiátricos (por exemplo, antipsicóticos atípicos em baixa dosagem para agitação ou psicose, embora com cautela, dados seus riscos em idosos), e consideração de incluir pacientes elegíveis nas novas terapias modificadoras conforme disponibilidade e diretrizes. Cabe ressaltar que prevenção ou atraso do surgimento da DA também é alvo de pesquisas e políticas de saúde, com evidências de que controle de fatores de risco vasculares, hábitos de vida saudáveis e engajamento cognitivo/social ao longo da vida podem reduzir o risco ou postergar o início da demência (Livingston et al., Lancet 2020).
Em conclusão, a doença de Alzheimer exemplifica os desafios de se traduzir conhecimentos fisiopatológicos complexos em tratamentos eficazes. Durante décadas, a terapêutica limitou-se a corrigir parcialmente déficits neurotransmissores secundários (como a perda colinérgica), o que confere benefícios sintomáticos transitórios. Os esforços recentes direcionados às proteínas patogênicas da doença (amiloide e tau) começam a render frutos cautelosamente otimistas, inaugurando possivelmente uma era de tratamentos que, combinados, poderão modificar o curso da doença. Entretanto, tais avanços não diminuem a importância do diagnóstico precoce e das intervenções sintomáticas atuais, que continuam sendo fundamentais para a qualidade de vida dos pacientes e familiares enquanto buscamos, por meio da ciência, soluções mais definitivas para essa devastadora enfermidade neurodegenerativa.
4. Considerações Finais
A farmacologia dos sistemas serotoninérgico, dopaminérgico, GABAérgico e glutamatérgico integra conhecimentos de neurociência básica e clínica que são cruciais para o manejo de diversos transtornos neurológicos e psiquiátricos. Ao longo deste artigo, revisamos os principais aspectos desses sistemas e como foram explorados terapeuticamente:
No sistema serotoninérgico, identificamos uma rica diversidade de receptores 5-HT (sete famílias) que permitem à serotonina modular processos como humor, ansiedade e apetite. Compreender essa diversidade tem sido chave no desenvolvimento de fármacos como os antidepressivos (que aumentam o tônus global de 5-HT) e agentes mais seletivos (agonistas 5-HT\<sub>1A\</sub> ansiolíticos, antagonistas 5-HT\<sub>3\</sub> antieméticos, antagonistas 5-HT\<sub>2A\</sub> antipsicóticos). A evolução dos antidepressivos ilustra um progresso notável, de agentes descobertos por acaso a drogas racionais e mais seguras, culminando recentemente em terapias de ação rápida via modulação do glutamato, indicando novas direções para tratar a depressão resistente.
No sistema dopaminérgico, vimos como as quatro vias principais ditam diferentes patologias e efeitos dos fármacos: a via nigroestriatal e os efeitos motores dos antipsicóticos e da doença de Parkinson; a via mesolímbica hiperativa na esquizofrenia e alvo dos antipsicóticos; a via mesocortical hipoativa possivelmente ligada a sintomas cognitivos; e a via tuberoinfundibular relacionada a efeitos endócrinos. Os antipsicóticos de primeira geração, antagonistas D\<sub>2\</sub>, comprovam a hipótese dopaminérgica dos sintomas positivos, mas seus efeitos adversos levaram ao refinamento dos fármacos de segunda e terceira gerações, que adicionam modulação serotoninérgica e agonismo parcial para equilibrar a neurotransmissão dopaminérgica nas diversas vias. Ainda que nenhum antipsicótico atinja perfeitamente todos os domínios da esquizofrenia sem efeitos colaterais, a disponibilidade de várias opções permite personalizar o tratamento conforme a resposta e tolerabilidade individuais.
Quanto ao sistema inibitório GABAérgico, exploramos os moduladores alostéricos do receptor GABA\<sub>A\</sub>. Os benzodiazepínicos permanecem insubstituíveis em muitas indicações agudas (status epiléptico, ansiedade severa, insônia de curto prazo), e seu mecanismo nos ensina sobre a relevância de subtipos de receptores GABA\<sub>A\</sub> na mediação de diferentes efeitos (por exemplo, α\<sub>1\</sub> para sono, α\<sub>2\</sub> para ansiedade). Os barbitúricos, hoje reservados a situações especiais, servem como contraponto de risco e nos lembram da importância da margem de segurança em fármacos depressores do SNC. Novos ansiolíticos/hipnóticos buscam manter eficácia modulando GABA\<sub>A\</sub> (como os “Z-drugs”) ou atuando em outros sistemas com menos dependência (como buspirona no serotoninérgico), mas os benzodiazepínicos ainda oferecem combinação única de eficácia, rapidez e simplicidade de uso, devendo, contudo, ser manejados com cautela para evitar dependência.
No sistema glutamatérgico, o mais ubíquo e excitador, apreciamos a dualidade entre seus receptores ionotrópicos, motores da transmissão rápida e da plasticidade de longo prazo, e os metabotrópicos, moduladores da excitabilidade e potencial alvos futuros de terapias finas (por exemplo, moduladores de mGlu para esquizofrenia ou ansiedade). Esse sistema destaca-se em condições como epilepsia (hiperexcitação sináptica), isquemia (excotoxicidade por NMDA) e mesmo esquizofrenia (hipofunção de NMDA), justificando o desenvolvimento de agentes como antagonistas NM Nos casos de glutamato, a excitação sináptica excessiva está implicada em epilepsia e excitotoxicidade (como em acidente vascular cerebral), justificando o desenvolvimento de agentes moduladores dos receptores NMDA (por exemplo, a memantina na doença de Alzheimer) e futuras terapias visando receptores metabotrópicos para neuroproteção. Por outro lado, a subfunção de NMDA e o desequilíbrio glutamatérgico cortical parecem contribuir para os déficits cognitivos da esquizofrenia, motivando pesquisas com moduladores alostéricos de mGluR\<sub>2\</sub>/3 e outros compostos para complementar o tratamento antipsicótico tradicional (Coyle, 2012).
Encerra-se, assim, que o entendimento integrado da farmacologia desses quatro sistemas neurotransmissores permite abordar de forma abrangente as bases de importantes classes de psicofármacos e neurofármacos. Os avanços históricos (como a revolução dos antidepressivos ISRS, a introdução de antipsicóticos atípicos e a substituição de barbitúricos por benzodiazepínicos) demonstram a evolução contínua guiada pelo aprimoramento do conhecimento científico. Atualmente, vivenciamos um momento promissor em que terapias inovadoras, como os anticorpos anti-amiloide na doença de Alzheimer, começam a emergir diretamente da compreensão molecular da patogênese (Zhang et al., 2024; Van Dyck et al., 2023). Ainda que esses novos tratamentos necessitem de validação adicional e venham acompanhados de desafios (custos, efeitos adversos), eles simbolizam a convergência bem-sucedida entre ciência básica e clínica.
Em conclusão, a farmacologia serotoninérgica, dopaminérgica, GABAérgica e glutamatérgica constitui um alicerce fundamental para a neurociência translacional. Os medicamentos atuais, embora não isentos de limitações, melhoraram imensamente a qualidade de vida de pacientes com depressão, esquizofrenia, ansiedade, epilepsia e demências. O contínuo aprofundamento do conhecimento desses sistemas, desde a sinapse até o comportamento e a patologia, abre caminho para terapias cada vez mais específicas e eficazes, com o objetivo último de modular circuitos neurais de forma precisa e restaurar o equilíbrio neuroquímico em condições de doença, minimizando efeitos indesejados. A trajetória delineada pela história até o presente indica que a próxima geração de tratamentos neurológicos e psiquiátricos provavelmente envolverá abordagens combinadas, multimodais e personalizadas, refletindo a complexidade inerente do cérebro humano e de seus neurotransmissores.
5. Referências
Autor-data no texto, referências ABNT:
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Para a leitura por circuitos que complementa esta leitura por neurotransmissores, ver Da heterogeneidade aos circuitos.
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